Em São Tomé e Príncipe, a expressão “feijoada à moda da terra” refere-se a um guisado tradicional feito com feijão-frade (também chamado de feijão-preto nas ilhas) e proteína local, geralmente peixe seco ou carne de porco salgada. Trata-se de um prato doméstico, presente sobretudo nas zonas rurais, onde os ingredientes vêm diretamente das hortas familiares ou do mercado local. Diferentemente de outras feijoadas conhecidas globalmente, a versão santomeense não segue receita fixa, mas sim princípios de aproveitamento, sazonalidade e tradição oral.
Ingredientes e preparo típicos
O núcleo da feijoada à moda da terra é o feijão-frade, cultivado em pequenas roças domésticas, especialmente na região sul de São Tomé. Junto a ele, entram:
- Peixe seco ao sol (geralmente carapau ou cavala)
- Cebola, alho e tomate frescos
- Piri-piri (malagueta local), usado com moderação
- Folhas de louro e, ocasionalmente, coentros
- Água ou caldo simples, sem uso de cubos industrializados
O preparo é lento. O feijão é deixado de molho na véspera, depois cozido até amolecer. O peixe seco é dessalgado com antecedência e adicionado no final, para não desmanchar. Tudo é cozinhado em panela de ferro ou alumínio, em fogão a lenha ou gás, dependendo da região. O resultado é um guisado espesso, aromático e levemente picante, servido quente.
Acompanhamentos tradicionais
A feijoada raramente é servida sozinha. Seus acompanhamentos mais comuns são:
- Arroz branco simples, cozido em água e sal
- Banana-da-terra frita ou assada
- Mandioca cozida, quando disponível
Em algumas famílias, especialmente nas áreas próximas ao litoral, é comum adicionar um fio de azeite de dendê caseiro no final — não como ingrediente principal, mas como toque final de sabor e cor. Esse dendê é produzido artesanalmente, prensado de frutos colhidos localmente.
Ocasiões e significado cultural
Este prato não está ligado a datas festivas específicas, mas sim à rotina alimentar das famílias santomeenses, sobretudo nas zonas rurais. É comida de domingo, de visita inesperada, de dia de chuva. Sua importância reside na funcionalidade: nutre, sacia e usa o que está à mão. Não há ostentação — apenas necessidade transformada em cuidado.
Nas comunidades, é comum que vizinhos partilhem panelas entre si, especialmente quando alguém prepara uma quantidade maior. Essa prática reflete um valor central na cultura local: a partilha como forma de pertencimento.
Onde experimentar com autenticidade
Embora raramente listada em cardápios turísticos, a feijoada à moda da terra pode ser encontrada em casas de comida caseira, sobretudo em vilas como Trindade, Santana, Neves ou Porto Alegre. Em Príncipe, variações existem, mas são menos comuns devido à menor disponibilidade de feijão-frade cultivado localmente.
Para prová-la com autenticidade, o ideal é ser convidado por uma família local ou buscar pequenos estabelecimentos familiares que não se promovem online, mas funcionam por indicação boca a boca.
Conclusão
A feijoada à moda da terra em São Tomé e Príncipe é um exemplo vivo de culinária de resistência e adaptação. Feita com poucos ingredientes, mas muito saber, ela representa o modo como os santomeenses transformam o essencial em afeto. Não é um prato de espetáculo — é um prato de casa. E, nisso, reside sua verdadeira riqueza.
